4. ECONOMIA 9.1.13

O ACORDO SAIU, MAS A CRISE FICOU
Democratas e republicanos concordam em no punir mais a classe mdia e adiam o colapso iminente, mas ainda esto longe de resolver o problema do desequilbrio fiscal.
ANA LUIZA DALTRO E MARCELO SAKATE

     Uma negociao bem-sucedida se concretiza quando duas partes com interesses distintos cedem um pouco em favor da conquista de um objetivo comum maior. Sob essa tica, democratas e republicanos no tm muito a comemorar no acordo da semana passada que tentou pr em ordem as contas do governo.  verdade que o presidente reeleito Barack Obama conseguiu afastar o risco imediato do abismo fiscal cavado por anos a fio de gastos acima das receitas (veja o quadro abaixo). Os dois lados conseguiram evitar que aumentos abrangentes de impostos entrassem em vigor imediatamente, o que poria em perigo a retomada ainda titubeante da economia americana. Obama e a oposio concordaram em no punir mais a classe mdia, por enquanto. O imposto de renda ser reajustado apenas para o 1% mais rico da populao.
     Os cortes nos gastos pblicos, a outra medida esperada para equilibrar as contas, foram adiados para maro deste ano. Por que maro? Porque, pelos clculos feitos, o acordo da semana passada s garante a solvncia do governo pelos prximos dois meses. Findo esse prazo. Obama e os lderes democratas tero de sentar-se de novo  mesa com os republicanos para definir se ampliam mais uma vez o limite legal de endividamento dos Estados Unidos. Sem isso,  certo o calote federal em credores por falta de dinheiro. Na ltima vez em que se viu pressionado por essa hiptese, h um ano e meio, o governo americano sofreu a desmoralizao de ter sido rebaixado por uma agncia de classificao de risco  ou seja, a sua capacidade de honrar dvidas foi posta em dvida. Naquela ocasio, a incapacidade de democratas e republicanos de chegarem a um acordo para no prejudicar a economia foi determinante para o rebaixamento. Este novo impasse foi ironizado pela revista inglesa The Economist, que vestiu Barack Obama e o lder republicano John Boehner em trajes folclricos europeus. Obama apareceu na capa da publicao com camiseta de listras, leno no pescoo e bret. Boehner veio de Lederhosen, a verso masculina do Tracht, traje tpico da Baviera. H muito a boina francesa e a cala curta de couro alem tm simbolizado a incapacidade dos lderes europeus de encontrar uma sada negocia- da para a crise do euro.
     O endividamento americano totaliza 16,3 trilhes de dlares, enquanto o aumento de tributos deve assegurar aos cofres pblicos uma receita de mais de 600 bilhes de dlares, e isso ao longo de dez anos. Feita uma analogia,  como se uma famlia com 163.000 dlares em dvidas no carto de crdito conseguisse uma receita extra de 6.300 dlares com o trabalho temporrio dos filhos para equilibrar as suas contas. O acrscimo ajuda, mas no  suficiente. Da a necessidade imperiosa de reduo das despesas ou de aumento ainda maior da arrecadao. O atual e o futuro desequilbrio fiscal so grandes demais para eximir 98%  ou mais  da populao de fazer parte da soluo, disse em artigo Greg Mankiw, professor de Harvard e conselheiro do republicano Mitt Romney na campanha eleitoral de 2012. Ele defende a ideia de que os impostos devem subir para a classe mdia, citando o envelhecimento da populao como um fator que pressionar os gastos federais nos prximos anos. Mas no cobrar mais da classe mdia  um dos poucos pontos que conseguem unir democratas e republicanos, dada a impopularidade da medida para uma parcela significativa da populao j suficientemente afetada pela crise. No fundo da alma, os republicanos se opunham a qualquer aumento de impostos. Isso causou um racha no partido. O crescimento da desigualdade social nos Estados Unidos fez com que a presso da populao por mais impostos sobre os ricos e pela manuteno dos gastos sociais se elevasse, mesmo que isso contrarie uma crena histrica americana de que mais impostos prejudicam o desenvolvimento, diz Marcelo Moura, professor do Insper. Alm do imposto de renda, a tributao ser mais pesada sobre o ganho de capital, os rendimentos das aplicaes financeiras. Os americanos ricos pagam muito pouco sobre os seus ganhos financeiros, situao que produziu a noo agora generalizada de que os mais bem aquinhoados pela sorte sofrem menos com os impostos do que os assalariados.
     Apesar do aumento recente, a tributao americana  classificada como moderada na comparao internacional. A nova alquota mxima de 39,6% (era de 35%) para contribuintes que ganham mais que 400.000 dlares anuais ainda fica abaixo da verificada na maioria dos pases europeus desenvolvidos. Na Inglaterra, o imposto sobre o rendimento do trabalho chega a 50% e, na Alemanha, a maior alquota  de 45%.  o mesmo porcentual da Frana, antes que entre em vigor, provavelmente em 2014, a taxao mxima de 75% proposta pelo socialista Franois Hollande. A medida, cuja vigncia foi adiada devido a um erro no projeto, j causa a fuga de milionrios do pas, como a do ator Grard Depardieu, que se mudou para a vizinha Blgica e a quem foi concedida a cidadania russa. Essa diferena em relao aos americanos (e outros pases) se explica pela extensa rede de proteo social dos europeus, que precisa ser custeada. A cobrana de impostos nada mais  do que a transferncia de riqueza da sociedade para o estado. O que vai determinar o tamanho da carga tributria  algo simples: a natureza do estado. So a despesa e o modo de financiamento do gasto pblico que determinam a carga tributria de uma nao, diz Everardo Maciel, ex-secretrio da Receita Federal e hoje consultor. No Brasil, a maior alquota para o imposto de renda  de 27,5%, mas o governo faz uso ostensivo de tributos sobre o patrimnio e, principalmente, sobre o consumo. No h consenso entre estudiosos sobre o nvel ideal de impostos para uma economia. Em outras palavras, no  possvel determinar o patamar a partir do qual um aumento de taxas se tornaria improdutivo por asfixiar a atividade nem o piso tributrio para que os negcios sejam estimulados a ponto de a arrecadao em alta compensar a reduo das taxas. Escolhas polticas  parte, no h dvida de que do equilbrio do sistema tributrio de um pas dependem substancialmente a sade da atividade econmica e a prosperidade geral  mesmo que ele sozinho no faa milagres. 

PARA ENTENDER O ABISMO FISCAL
Cortar oito zeros nos valores trilionrios do dficit dos Estados Unidos e adapt-los ao oramento domstico de uma famlia americana ajuda a entender o desequilbrio dramtico das contas daquele pas (em dlares).

O ORAMENTO DE UM DOMICLIO AMERICANO
 Dvida acumulada no carto de crdito 163.000
 Renda anual da famlia 24.000
 Despesas familiares anuais 35.000
 Aumento da dvida no carto de crdito 11.000
 Esforo para ganhar mais e gastar menos (valor acumulado em dez anos) 6.300 = 4% do total da dvida.

O ORAMENTO DO GOVERNO AMERICANO
 Dvida total 16,3 trilhes
 Receita anual 2,4 trilhes
 Despesas anuais 3,5 trilhes
 Dficit anual 1,1 trilho
 Novas  receitas e cortes de despesas (valor acumulado em dez anos) 630 bilhes = 4% do total da dvida


